Author: ana-regina

Nas últimas semanas o desporto rei tem sido assunto recorrente.
Não que não o seja por norma (muito mais dos que seria desejável, diria) mas ultimamente tem trazido para a ribalta aquilo que de melhor qualquer actividade – física, intelectual ou social – pode ter: o lado mais humano da questão.
Quando, há praticamente 10 anos atrás, um jovem húngaro se despediu da vida em campo, partilhando o seu último sorriso com todos os que, mais ou menos aficionados, não puderam evitar o momento, a onda de reflexão generalizada sobre o sentido e a fugacidade da existência humana veio com o ímpeto de um tsunami, de repente transformando o campo de sonhos num palco global de emoções profundas. A ferocidade das paixões normalmente associadas ao futebol deu lugar, durante aqueles dias, a um oceano de sensibilidade e cooperação.
Clubismos à parte (e neste ponto devo admitir que o meu coração é tão vermelho quanto o da Fáfá…;), a ocasião só encontrou par por estas bandas no dia de Reis (e seguintes) deste ano. No mínimo curioso que a partida daquele que foi apelidado King, considerado o melhor na sua função no país que o acolheu e em tempos no mundo, tenha coincidido com tal solenidade… O que é facto é que todo o planeta lamentou o sucedido, de forma que para alguns poderá parecer exagerada mas que não deixa de denotar algumas características que começam a faltar no nosso dia-a-dia: sinceridade, simplicidade, espontaneidade, afeição e respeito.
E o que tem isto que ver com o Evangelho de Domingo? Chamem-me louca (que o sou!) mas eu diria: tudo. Este Domingo ouvimos o testemunho de João Baptista sobre a forma como a sua vida/actividade diária ganhou sentido ao encontrar Jesus e reconhecê-lo como Filho de Deus. Nas suas palavras: “Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água”.
Das últimas semanas uma das frases que mais me ficou foi algo nestes moldes: “Ele era tão bom naquilo que fazia que todos os passos dele davam Glória a Deus”. E isto fez-me pensar naquilo que ninguém devia esquecer em momento algum: todos nós temos talentos, uns mais desenvolvidos outros menos; uns mais notáveis outros mais discretos; uns mais propícios ao lucro, outros nem tanto, mas todos, todos sem excepção, podem ser usados para o bem, glorificando Aquele que nos criou e que nos quer a fazer o melhor que pudermos com os nossos dons.
Os homens da bola não são mais que os outros, são criaturas, com talentos, com fraquezas, com qualidades e imperfeições. Não são mais dignos de nota ou respeito do que qualquer um de nós, a não ser que se destaquem por aquilo que a todos pode fazer brilhar seja em que campo for: coragem, dedicação, honradez, humildade, altruísmo e, claro, aquilo a que muito raramente se chama de vocação. E não há vocação menos digna que qualquer outra, desde que os princípios que a guiem sejam aqueles que tornam miúdos em heróis, estranhos de terras longínquas em irmãos, homens comuns em exemplos de vida.
O nosso maior exemplo é Jesus, mas há tantas formas diferentes de segui-Lo quantos seguidores, e nenhuma delas está mais certa que a outra. Basta que nos entreguemos, de corpo e alma e coração aberto, e cultivemos aquilo que Ele semeou em nós e espera que façamos crescer e dar fruto. Esse fruto, seja em forma de sorriso, de presença constante e humilde, de lágrimas de emoção sincera, ou de qualquer outra manifestação mais ou menos espalhafatosa, desde que provenha de terra fecunda e floresçam com a luz d’Ele, a da Fé e do Amor, terão, certamente, para Deus o sabor da Glória. 

Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». Jo 1, 29-34

O Evangelho deste domingo fala-nos de Esperança…
A Palavra de Deus é toda ela de Esperança mas em tempo de Advento o termo faz ainda mais sentido. Esperança vem de esperar, e todos esperamos alguma coisa, mesmo quando não acreditamos realmente que possa vir a acontecer…
No dicionário a definição apresenta-se, modo geral, nestes termos: “Esperança é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal. A esperança requer uma certa perseverança — i.e., acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. O sentido de crença deste sentimento aproxima-o muito dos significados atribuídos à fé.”
Advento é tempo de esperança, por excelência. Tempo de preparação, de reflexão, de recolhimento, de repensar o nosso passado e reconstruir o nosso futuro, de preferência usando Jesus como exemplo cada vez mais próximo.
Mas como cultivar a esperança quando parecem não haver razões? Esperar o quê quando tudo quanto esperamos resulta em nada? Viver esperançoso com que fim, se as nossas esperanças só resultam em desilusões?
Se há coisa que a vida nos vai ensinando é que não é de sonhos que se constroem realidades. Os sonhos são úteis, são o ideal que nos guia quando as forças fraquejam, são a luz que vai brilhando no meio da escuridão, mas para que a luz brilhe precisa de alimento, para que o ideal subsista precisa de uma base que o sustente. Precisamos de sonhos, sim, mas enquanto os sonhos não se transformarem em objectivos tudo quanto sonharmos não passará de utopia, e a utopia é bela, sim, mas não gera felicidade.
Jesus deu forma aos sonhos de Deus, enfrentando a realidade, tornando objectivos os ideais que o guiaram. Estaremos nós preparados para seguir o seu exemplo? Se não, temos até ao Natal para encontrarmos forma de o fazer. E, como o Natal é sempre que o Homem quiser, Ele continua a dar-nos a oportunidade de, a cada dia, traçarmos um novo caminho para O seguir.

Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».
Mt 11, 2-11


Este Domingo vamos ouvir falar de perseverança, palavra aparentemente tão datada quanto honestidade, generosidade ou lealdade, pelo menos a julgar pela quantidade de pessoas que ainda lhes dá uso… Num mundo em que tudo é transitório, que o que é verdade agora pode não o ser no momento seguinte e em que a realidade virtual ganha terreno frente à realidade… real, há certas coisas que realmente parecem não fazer sentido, ou se fazem torna-se tão difícil vê-lo que num pestanejar deixam de fazer… Ou não, se a dona perseverança perseverar!
Perseverança é, no fundo, a capacidade de fazer face às adversidades, de se manter fiel àquilo em que se acredita, de remar contra as marés. É um dom que custa a cultivar, principalmente em tempos conturbados, mas que só aí adquire verdadeiro sentido.
Há dias ouvíamos, muito subtilmente, falar do maior tufão já registado, que assolou o arquipélago das Filipinas. As vidas levadas pelas correntes, as faces lavadas pelas tempestades, os corações destroçados por perdas irreparáveis e feridas que certamente nunca sararão fazem parte de uma realidade que não se pode apagar com um clique… São pessoas, são seres humanos como nós, que viram o seu mundo ruir sem que nada pudessem fazer para o impedir. Um povo habituado a catástrofes naturais e a provações de todos os tipos, e que constitui a maior percentagem de católicos do mundo. Um país formado por mais de 7000 pequenas ilhas. Uma terra onde a pobreza material impera mas a esperança é rainha e a fé é mãe…
E é normalmente de quem mais sofre que se recebem as maiores lições, pois quem conhece o sofrimento profundo sabe reconhecer a humanidade de quem o rodeia e identificar-se com ela. É quem mais de perto conhece a dor que mais habituado está a lutar e melhor conhece os benefícios da perseverança, porque é ela o único caminho para ultrapassar os obstáculos e chegar a bom porto.
Há anos alguém me contava uma história que desde então sempre me acompanhou: algures num tempo e lugar longínquo, um sábio rei pedira que lhe gravassem três palavras no anel que empunhava. Nos momentos de maior provação e nos momentos de maior alegria, ele olhava o anel e reflectia. Nele podia ler-se: “Isto também passará”. E assim o rei reencontrava a sensatez na abundância e a esperança no desânimo.
Precisamos cada vez mais de símbolos de sabedoria, mais que isso, precisamos de ser sinais de esperança, porque o paraíso que nos é prometido nas escrituras pode (e deve!) ser construído aqui, agora, desde que cada um se comprometa nesse sentido e persevere na luta por aquilo que merece o esforço. E há tanto a ser feito… seja lá, onde a natureza responde enfurecida aos nossos ataques, ou bem perto, onde as ondas de indiferença e os remoinhos de desânimo levam tantos para tão longe.
Podemos fazer tanto, porque como as pequenas ilhas das Filipinas nos provam, a união faz a força, e não há energia mais poderosa neste mundo do que aquela que dá pelo nome de Amor e esse, quer queiramos quer não, quer nos demos conta ou nos passe ao lado, está Sempre presente e, com Ele, nada é impossível.

Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».
Lc 21, 5-19


“Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes.”

Em duas palavras o Evangelho resume, pela voz de Jesus, as ideias essenciais que o precedem na celebração deste Domingo: “… vós que espezinhais o pobre e quereis eliminar os humildes da terra (…) Nunca esquecerei nenhuma das suas obras” e “que se façam orações, súplicas e acções de graças por todos os homens…” Como é costume, e por muito que pareça o contrário, as mensagens das leituras do dia não se contradizem, antes se complementam, em concordância com o Evangelho, para nos mostrar a melhor forma de agir.
Com a história dos “dois deuses” aos quais não podemos servir ao mesmo tempo, Jesus não nos diz que devemos viver como indigentes ou renunciar ao conforto que os bens materiais nos podem proporcionar. Ele limita-se a lembrar-nos de uma verdade que nunca devia ser ignorada: nenhum de nós é mais que qualquer outro, e todos somos responsáveis, de uma forma ou de outra, pela felicidade de quem nos rodeia. Seja pela dos homens de poder, que não precisam de críticas infundadas mas de lições de vida e exemplos construtivos; seja pela dos que podem menos do que nós, os “humildes da terra”, que merecem tanto a nossa consideração como qualquer outro e certamente necessitam dela mais do que os restantes.
Dizer que a busca pela justiça é uma obrigação dos senhores da lei é correcto e, mais do que isso, uma necessidade e uma exigência que todos devíamos fazer, mas lutar por ela é um dever de todos, e daqueles que querem seguir a Cristo de uma forma ainda mais severa.
Porque o que é injusto nas coisas pequenas também o é nas grandes, e o mundo precisa de gente fiel, de gente comprometida com a verdade, com a justiça, com o perdão, com a concórdia, com o bem-estar de todos. Não basta ir à missa a Domingo e rezar pelo que sofre – o que em si já são coisas boas – mas é preciso sair do conforto, estender a mão, dar a cara, usar a voz e os dons que nos foram confiados… Porque o mundo que nos rodeia está pejado de injustiças e para as combater não basta ficar sentado à espera que alguma coisa mude, não basta sequer apontá-las de longe com medo de se envolver, é preciso ir e fazer acontecer. Quem o faz arrisca-se a sofrer, a aguentar crueldades e maledicências, a bater com a cabeça nas paredes e ser crucificado das mais variadas formas, mas o risco de deixar o mundo um bocadinho melhor do que aquilo que se encontrou vale o esforço, e esse é o dever de todo aquele que quer servir a Deus.

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Um homem rico tinha um administrador, que foi denunciado por andar a desperdiçar os seus bens. Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar’. O administrador disse consigo: ‘Que hei-de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar a administração? Para cavar não tenho força, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei-de fazer, para que, ao ser despedido da administração, alguém me receba em sua casa’. Mandou chamar um por um os devedores do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite’. O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te depressa e escreve cinquenta’. A seguir disse a outro: ‘E tu quanto deves?’. Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta’. E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes. Ora Eu digo-vos: Arranjai amigos com o vil dinheiro, para que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».
Lc 16, 1-13


«Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus»
No Evangelho deste Domingo, S. Lucas faz-nos refletir sobre as condições para entrar no Reino de Deus e a conclusão é bem simples: acolhe-Lo! Pode parecer um contra-senso mas a verdade é que faz todo o sentido: para viver no reino de Deus, cada um de nós tem que recebê-lo como parte de si mesmo e criá-lo em seu redor, só assim é possível habitá-lo. No fundo, aquilo que Jesus diz é que quem tem de abrir “a porta estreita” somos nós, com as nossas escolhas, e que fazê-lo está ao alcance de qualquer um, desde que viva pronto a acolher. E acolher é aqui uma palavra tão importante… que, neste contexto, não posso deixar de associar a mais uma daquelas experiências marcantes…
O ano passado, por esta altura, tive a alegria de viver em Missão, junto dos Passionistas no Calumbo, Angola. E que doçura é poder ser acolhido de braços abertos numa casa onde não é preciso sequer abrir portas porque nem portas há, por gente que todos os dias come a mesma papa, mas abre mão de tudo o pouco que tem para dar o melhor aos convidados… É uma lição de desprendimento, de partilha, de generosidade, que nos ensina que, realmente, “abrir mão” não é necessariamente desistir de alguma coisa mas antes pode ser dar-se e, ao mesmo tempo, receber, acolher, cuidar… E é isso que Deus nos pede, no fundo, quando através de Jesus nos diz que nos amemos uns aos outros: que nos reconheçamos como iguais, que nos respeitemos nas nossas diferenças, que nos sejamos capazes de desprender de nós próprios e dos nossos egoísmos pelo bem do irmão.
Acolher, a todos, com o mesmo Amor que Jesus ensinou, e nenhuma porta será demasiado estreita para nos deixar passar.

Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
Lc 13, 22-30


“Pedi e dar-se-vos-á”, lembra-nos Jesus no Evangelho deste domingo.
Pedi e dar-se-vos-á… Que dúvidas, que medos, que preocupações podem permanecer num coração que verdadeiramente crê e vive tais palavras? Jesus apresenta-nos a resolução de todos os problemas, a resposta para todas inquietudes: com fé, n’Ele e no Amor inabalável que em nós habita, não há impossíveis! Pede-nos que paremos para admirar o exemplo das crianças, que na sua crença absoluta de que tudo pode acontecer, lutam afincadamente até que, por persistência ou habilidade, conseguem, de uma forma ou de outra, concretizar os seus objectivos. É Ele quem nos garante que, vivendo no nosso dia-a-dia o seu exemplo, com a confiança de um filho que se deixa abraçar pelo Pai, todos os caminhos nos levarão ao melhor dos destinos, pois “se nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».
Esta é uma daquelas passagens que me faz levantar a cabeça em todas as circunstâncias menos claras do meu percurso, e que ficará eternamente relacionada com as Jornadas Mundiais da Juventude de há dois anos atrás… Agora que, no Rio de Janeiro, milhares de jovens celebram a sua fé de uma forma única e inesquecível para todos quantos têm o privilégio de viver uma tal experiência, recordo como se fosse hoje, o momento em que, já sem esperança de vir a concretizar um dos objectivos da minha longa lista – participar numas JMJ – perguntei a uma querida amiga com quem iria ela para Madrid, e no final da resposta (que tornaria a Associação da Juventude Passionista companhia constante na minha caminhada) oiço um “queres vir connosco?” ao qual, tomada de uma qualquer força de decisão imediata completamente estranha à minha pessoa, respondo com um “Sim” que me conduziria a uma das semanas mais maravilhosas da minha existência. E sempre que penso em “ser feliz”, são as experiências em que, como aquela, me deixei ir nos braços de Deus, de coração aberto e alma serena, pronta a dar as mãos a quem quer que estivesse ao meu lado, e a chamar “Pai Nosso” em línguas que todo o coração entende, que se me afloram à memória…
Nesta semana, tão especial para todos quantos estão reunidos no Rio de Janeiro com o Papa Francisco, e todos os que se unem no mesmo Espírito que nos guia, saibamos todos entregar-nos a essa Vontade de Deus que sempre nos guia por sendas direitas, rumo a prados verdejantes, e unirmo-nos nesta comunhão constante em nós que somos filhos do mesmo Pai.

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».
Lc 11, 1-13


«Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra», é uma das frases mais marcantes do Novo Testamento e uma daquelas que mais presente devia estar no dia-a-dia de cada ser humano, principalmente daqueles que querem seguir os ensinamentos de Cristo.
É provavelmente, também, das metas propostas por Jesus, uma das mais difíceis de atingir…

Quanto preconceito, quanta altivez, quanto orgulho ferido, quantas aparências, quantas falsas seguranças, que nos enchem de nós mesmos, e daquilo que é a nossa medida do mundo, e dos medos que nos afastam de tudo quanto é “diferente”, e nos impedem de, verdadeiramente, viver em comunhão com “o outro”… Quantas pedras guardamos no coração, prontas a atirar a quem se afastar do nosso ideal de “perfeição”, pesando-nos na alma e impedindo-nos de avançar rumo ao nosso próprio bem-estar…

Quantas vezes rejeitamos aos irmãos a simples possibilidade de mostrarem quem são pelo simples facto de nos parecerem “demasiado isto” ou “demasiado aquilo”? Quantas vezes deixamos que a fisionomia do corpo, ou a cor da pele, ou o sotaque, ou as dificuldades que moldam vidas, ou os problemas que ferem até ao mais fundo da alma, ou as escolhas que ditam percursos, ou mesmo o nome com que se conhece a Deus, nos impeçam de darmos a nós mesmos uma oportunidade de deixar “o outro” ser uma parte enriquecedora de quem somos?

Jesus é aquele que olha a todos com o mesmo olhar: um olhar de Amor, de compreensão, de vontade de ser parte da solução e não de agravar o problema. É desse olhar que precisamos, e é só com ele (e com Ele) que podemos construir o reino de paz e felicidade que, a cada novo dia, nos é dada a oportunidade de construir. E é preciso que comecemos por usá-lo sobre nós próprios, reconhecendo-nos como filhos amados, em quem Ele põe a sua confiança para fazer as escolhas certas, sempre com a consciência de que todos estamos a caminho, de que todos falhamos, e de que só deixando de lado as pedras e dando lugar às oportunidades poderemos, juntos, chegar a um bom lugar.

Que, como nos pediu o recém-eleito Papa Francisco, saibamos, nesta Quaresma, dar início (ou continuidade) a um caminho presidido pela Caridade, rezando com ele e por ele, para que o nosso rumo comum seja a verdadeira Fraternidade.

Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».
Jo 8, 1-11


“O Papa anunciou esta segunda-feira que resigna ao pontificado a partir de 28 de Fevereiro”: será impossível a um católico não se sentir abalroado pela surpresa que surge ao escutar tais palavras. O Pastor, o guia, o sucessor do Mestre decide, por livre iniciativa, deixar o cargo que lhe foi confiado, deixar o leme de uma Igreja que se vê, assim, numa situação que se poderia assemelhar à orfandade.
“Resignação” está, por definição, associada a desistência, a abandono por desespero ou falta de alternativas. Contudo, mais do que isso, resignar é aceitar o inevitável com a humildade de quem sabe que há circunstâncias que ultrapassam a nossa vontade e a confiança de quem acredita que de todas elas se pode extrair o melhor, independentemente das dificuldades.
A capacidade de tomar decisões é provavelmente a maior bênção de que foi dotada a humanidade. A liberdade de escolha vem, no entanto, acompanhada da maior das responsabilidades: aquela que coloca sobre cada um de nós o peso das respectivas consequências.
No início de mais uma Quaresma, Jesus apresenta-se-nos em toda a sua humanidade. No deserto, em jejum durante quarenta dias, Ele aproxima-se da fragilidade humana de uma forma que poderia ser extraordinariamente perigosa para alguém que tinha tanto a provar. Porém, mais uma vez, a maior prova que Ele nos dá é de que a força não está no poder infinito, na riqueza desmedida ou na subjugação do outro. more


No Evangelho deste domingo, João leva-nos até Canaã da Galileia, um lugar desprezado naquela época, para nos dar conta do primeiro milagre público de Jesus. Convidado para “umas bodas”, com seus discípulos e sua Mãe, Jesus é confrontado com a escassez de vinho naquela festa e, mesmo afirmando não ser “a Sua hora”, supre aquela que é uma necessidade daquela gente, transformando a água abundante no desejado vinho.
Este é o primeiro de muitos milagres que marcariam a vida de Jesus. Milagres esses que se pautam por um aspecto comum: todos eles decorrem de uma TRANSFORMAÇÃO.
Água em vinho, escassez em abundância, doença em cura, morte em vida…  more


“A vida é Missão” é uma frase que me acompanha há já muito tempo, mas que passa a fazer um sentido bem mais claro quando dispomos de tudo o que temos e agarramos em tudo do que dispomos para ser instrumento de um projeto maior que nós.
Partir é sempre deixar muito para trás – por muito que esse muito que deixamos nos acompanhe sempre na forma de quem somos – mas partir em Missão é partir para encontrar muito mais do que aquilo que deixamos, é partir para encontrar noutros mundos, noutros olhares, noutras formas de olhar, quem somos verdadeiramente. more